Professor da UFU publica artigo que propõe uma leitura decolonial da imunologia
Publicado: 03/03/2026 - 12:31
Última modificação: 03/03/2026 - 12:31
É com grande satisfação que divulgamos a publicação do artigo “The Coloniality of Power in Immunology”, de Claudio Vieira da Silva, professor do Departamento de Imunologia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), na revista internacional Postdigital Science and Education. O trabalho propõe uma reflexão instigante sobre os fundamentos históricos, políticos e culturais da imunologia moderna, convidando-nos a repensar conceitos que, muitas vezes, são apresentados como puramente técnicos ou neutros.
No texto, o autor questiona a linguagem dominante da imunologia, tradicionalmente estruturada a partir da metáfora da guerra. O corpo é descrito como território soberano; o sistema imune, como um exército que vigia fronteiras e combate invasores. Segundo ele:
“The dominant language of modern immunology is one of perpetual conflict.”
Essa forma de pensar, argumenta o professor, não é apenas biológica, mas também um artefato cultural que dialoga com a consolidação dos Estados-nação europeus no século XIX, marcados por ideias de soberania, pureza e exclusão do “outro”. Ao problematizar essa herança, ele provoca:
“Is warfare the only, or the most accurate, way to understand our intricate and ancient relationship with the microbial world?”
A proposta não é negar os avanços científicos da imunologia, mas realizar uma análise decolonial de seus pressupostos, evidenciando também o silenciamento de outros modos de compreender a saúde — especialmente saberes tradicionais e indígenas que pensam o corpo de forma relacional e ecológica.
Um dos eixos centrais do artigo é o conceito de holobionte. A biologia contemporânea mostra que somos constituídos por uma imensa comunidade microbiana. Como destaca o autor:
“For every human cell, there is at least one microbial cell.”
Essa constatação desloca a clássica distinção entre “eu” e “não-eu”. Se somos formados por microrganismos, quem é exatamente o “eu” que está sendo defendido? A partir dessa provocação, o artigo propõe uma mudança de paradigma: sair da lógica da erradicação e migrar para uma lógica de cuidado e manejo da diversidade microbiana. Em suas palavras:
“Immunology’s primary focus thus shifts from the eradication of individual pathogens to the cultivation of resilient, biodiverse holobionts and the restoration of healthy ecosystems.”
Essa discussão tem implicações diretas nas crises sanitárias contemporâneas, como a resistência bacteriana associada ao uso indiscriminado de antibióticos e o aumento de doenças autoimunes relacionado à hipótese da higiene. Ao privilegiar a pureza e a eliminação total, desregulamos sistemas complexos que dependem de equilíbrio e diversidade.
Ao final, o professor aponta para a necessidade de uma transformação conceitual e ética na formação em saúde. Como afirma:
“Move away from the metaphor of war and toward other metaphors such as gardening, diplomacy, or ecosystem stewardship.”
Trata-se de um convite a repensar a imunologia e a própria ciência, a partir de uma perspectiva mais ecológica, relacional e plural. Em um país como o Brasil, atravessado por processos históricos de colonização e desigualdade, essa reflexão ganha ainda mais relevância.
Convidamos todas e todos a lerem o artigo na íntegra. O PDF está disponível abaixo. É uma contribuição fundamental para os debates sobre ciência, poder, saúde e formação crítica. Boa leitura!
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